No universo da arquitetura e do design de interiores, poucas tendências se consolidaram com tanta força e elegância quanto o uso dos revestimentos cerâmicos de grande formato. Mais do que uma simples escolha de acabamento, as lastras cerâmicas representam uma declaração de intenção, uma busca por superfícies monolíticas que transformam pisos e paredes em verdadeiras telas contínuas. Elas evocam a grandiosidade das pedras naturais extraídas em blocos únicos, mas com a versatilidade e a tecnologia da cerâmica de vanguarda.

A escolha dessas peças, no entanto, é uma jornada que transcende a pura estética. Para o arquiteto e o designer, especificar revestimentos cerâmicos de grande formato é um exercício que une sensibilidade artística a um profundo conhecimento técnico. É preciso entender desde as nuances de um coeficiente de atrito até a logística complexa de manuseio e assentamento. Um erro em qualquer etapa pode comprometer não apenas a beleza do projeto, mas sua segurança e longevidade.

Por isso, a ProFatto preparou este texto para você. Vamos mergulhar nos critérios que você precisa dominar para fazer escolhas seguras, informadas e que elevem o padrão dos seus projetos.

A ascensão dos grandes formatos: por que eles conquistaram o design?

Para compreender a paixão do mercado por estas peças, é preciso analisar os benefícios que elas oferecem, que vão muito além da primeira impressão.

A psicologia da continuidade visual 

O cérebro humano percebe espaços com menos interrupções visuais como mais amplos, limpos e serenos. As lastras, com suas juntas mínimas, eliminam o “ruído” visual do rejunte excessivo, criando uma sensação de fluidez e expansão. Em projetos de planta aberta, essa característica é fundamental para unificar ambientes como cozinha, sala de jantar e living, tratando o piso como um elemento conector que confere coesão e harmonia ao layout.

O luxo na escala

A grandiosidade da peça em si é uma afirmação de sofisticação. Remetendo aos imponentes blocos de mármore Calacatta ou Travertino, as lastras trazem essa aura de luxo para o projeto de forma mais acessível e sustentável. O design não está apenas no padrão da superfície, mas na própria escala da peça, que por si só já organiza o espaço de forma nobre.

Manutenção otimizada, beleza prolongada

Este é um argumento prático e de grande valor para o cliente final. Menos rejunte significa menos áreas porosas para o acúmulo de mofo, limo e sujeira, especialmente em áreas críticas como cozinhas e banheiros. A limpeza se torna mais rápida e eficaz, e a aparência de novo se mantém por muito mais tempo.

Versatilidade sem limites

A tecnologia por trás dos porcelanatos de grande formato, especialmente os de menor espessura (slim), abriu um leque de possibilidades criativas. Além de pisos e paredes, eles podem ser utilizados para criar:

  • Bancadas e ilhas de cozinha: superfícies monolíticas sem emendas.
  • mobiliário personalizado: revestimento de portas, painéis de TV, cabeceiras de cama e frentes de armário.
  • fachadas ventiladas: uma solução moderna e durável, que confere elegância ao exterior do edifício e melhora o conforto térmico.
  • Nichos e prateleiras esculpidas: criando detalhes de acabamento que parecem esculpidos em um único bloco de pedra.

Leia também: Quais os principais tipos de porcelanatos no mercado?

Como fazer a escolha certa?

Para navegar com segurança no processo de especificação, dividimos o conhecimento em quatro pilares essenciais.

1. Decifrando os aspectos técnicos

Esta é a fundação de uma escolha bem-sucedida. Ignorar estes dados é arriscar a integridade do projeto.

Resistência à abrasão (PEI e local de uso): A classificação PEI indica a resistência do esmalte das placas cerâmicas ao desgaste superficial causado pelo tráfego. Embora útil, a indústria tem migrado para uma indicação mais completa: o local de uso, que considera não apenas a abrasão, mas também outros fatores, como impacto, manchamento e resistência mecânica.. Entender ambos é um diferencial.

  • PEI 1: uso exclusivo em paredes.
  • PEI 2: Pisos residenciais de tráfego leve, como banheiros e dormitórios-, onde se anda descalço ou com chinelos.
  • PEI 3: pisos de todas as áreas residenciais internas, sem acesso direto para o exterior.
  • PEI 4: pisos de áreas residenciais (incluindo as com acesso para o exterior) e comerciais de tráfego moderado.
  • PEI 5: pisos de áreas comerciais e industriais de tráfego muito intenso,  sujeitos a uso contínuo e alto desgaste. 

O Local de Uso é uma evolução, pois considera não apenas a abrasão, mas um conjunto de fatores para recomendar a melhor aplicação, simplificando a decisão do profissional.

Coeficiente de atrito (segurança em primeiro lugar): Este índice é crucial e está diretamente ligado à prevenção de acidentes. A norma brasileira (NBR 13818) classifica as superfícies em classes:

  • Classe I (< 0,4): para áreas internas secas. Indicado para salas, corredores e quartos. Revestimentos com acabamento polido geralmente se enquadram aqui.
  • Classe II (≥ 0,4): ambientes internos molháveis e áreas externas cobertas. Essencial para cozinhas, banheiros, varandas gourmet e garagens. A maioria dos revestimentos com acabamento acetinado ou natural atende a este requisito.
  • Classe III (≥ 0,7): indicado em áreas externas descobertas, rampas, decks de piscina e locais com alto e constante risco de escorregamento. Revestimentos com acabamento EXT ou Grip são projetados para esta finalidade.

Absorção de água (o DNA do porcelanato): a baixa absorção de água é o que confere ao porcelanato sua altíssima resistência mecânica e durabilidade.

  • Porcelanato (Grupo BIa): ≤ 0,5% de absorção. Isso o torna praticamente imune a manchas, resistente ao gelo em climas frios e extremamente durável.
  • Grês (Grupo BIb): 0,5% a 3%.
  • Semigrês (Grupo BIIa): 3% a 6%. A escolha por um porcelanato é, portanto, uma garantia de maior performance a longo prazo.

Resistência a manchas e químicos: verifique a classificação de resistência a manchas (geralmente de 1 a 5, sendo 5 o mais resistente). Porcelanatos de alta qualidade são pouco porosos e fáceis de limpar, são pouco suscetíveis à penetração de líquidos e resistem bem a agentes como vinho, café e produtos de limpeza, um fator essencial para bancadas e pisos de cozinha.

2. Estética que inspira: acabamentos, padrões e juntas

Com a base técnica sólida, é hora de dar asas à criatividade e esculpir a identidade visual do projeto. A escolha da “pele” do revestimento, seu acabamento e padronagem, é o que irá ditar a atmosfera, o toque e a personalidade de cada ambiente.

A jornada estética começa pela escolha do acabamento. Ele pode ser categorizado em:

  • Polido: o brilho espelhado é obtido por um polimento mecânico intenso da superfície após a queima, o que o deixa mais suscetível a micro-riscos e mais escorregadio quando molhado. É ideal para áreas de impacto visual, como halls de entrada e livings.
  • Acetinado: o queridinho do design contemporâneo. Possui um toque suave e um brilho discreto, quase nulo, que não reflete a luz intensamente, conferindo um ar de sofisticação e aconchego. É mais resistente a riscos e menos escorregadio que o polido.
  • Natural (NAT): o acabamento mais versátil. Não recebe polimento, mantendo um aspecto mais fosco e com uma textura sutil que garante maior segurança, sendo adequado para praticamente todas as áreas internas.
  • Externo (EXT/Grip): possui uma superfície intencionalmente mais texturizada e abrasiva, projetada para garantir máxima aderência em áreas externas e molhadas.

As tendências atuais valorizam a conexão com a natureza, em um movimento de biofilia, trazendo para dentro de casa a beleza de mármores nobres com veios dourados e marcados, como o Calacatta Gold, a textura tátil de pedras rústicas, o calor de madeiras fiéis e o visual urbano do cimento queimado. Essa abordagem se alinha à “luxúria silenciosa”, onde a sofisticação reside na qualidade e autenticidade dos materiais. A grande vantagem sobre a pedra natural é a possibilidade de ter um padrão consistente, com variações sutis e controladas que aumentam o realismo, mas eliminam as surpresas indesejadas da extração.

Para que essas belas superfícies atinjam seu potencial máximo, o segredo reside em um detalhe técnico crucial: as bordas retificadas. Por serem cortadas com precisão milimétrica após a queima, essas peças permitem um assentamento com juntas mínimas, geralmente entre 1,5mm e 2mm. 

É essa proximidade que cria o efeito de uma superfície contínua e monolítica. Nesse contexto, a escolha do rejunte transcende a função de simples preenchimento e se torna um ato de design. Um rejunte de cor similar à da peça praticamente desaparece, reforçando a sensação de um plano único e ampliando o espaço. Por outro lado, um rejunte contrastante pode ser usado intencionalmente para criar paginações gráficas, delinear a geometria da peça e adicionar uma forte assinatura de personalidade ao projeto.

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3. A instalação como fator crítico de sucesso

A melhor peça pode ser arruinada por uma instalação inadequada. Esta etapa não permite erros.

Planejamento da paginação

 Antes de tudo, o layout. Onde começará o assentamento? Para onde serão direcionados os recortes? Como o desenho dos veios se conectará entre as peças? Um bom plano de paginação é essencial para otimizar o uso do material e garantir um resultado estético superior.

Mão de obra e ferramental específico

O profissional deve ter experiência comprovada com lastras. O ferramental é específico: réguas de corte de grande formato, serras elétricas refrigeradas a água, e, principalmente, sistemas de ventosas de sucção para levantar e transportar as peças com segurança.

Preparo da base 

A base (contrapiso ou parede) deve estar perfeitamente curada, limpa, e, acima de tudo, plana. A norma técnica tolera uma variação máxima de 3mm em uma extensão de 2 metros. Qualquer irregularidade maior pode criar pontos de tensão na peça, levando a trincas após a instalação.

Argamassa e a técnica da dupla colagem

É obrigatório o uso de argamassa colante do tipo ACIII, que possui maior teor de aditivos que garantem flexibilidade e alta aderência. A técnica de dupla colagem é inegociável: a argamassa é aplicada com desempenadeira dentada tanto na base quanto no verso completo da peça. Isso garante 100% de contato, evitando espaços ocos que podem causar quebras por impacto.

Assentamento e nivelamento

O uso de clipes niveladores é indispensável. Essas pequenas peças, inseridas nas junções, garantem que a superfície de todas as placas fique perfeitamente alinhada, eliminando “dentes” e assegurando o acabamento plano e contínuo que se espera de revestimentos cerâmicos de grande formato de alto padrão.

Cura e rejuntamento

Após o assentamento, é preciso aguardar o tempo de cura da argamassa (geralmente 72 horas) antes de aplicar o rejunte. Dê preferência a rejuntes de performance superior, como o acrílico ou o epóxi, que são mais flexíveis, impermeáveis e menos suscetíveis a manchas e mofo.

Checklist de erros comuns a evitar

  • Ignorar o nivelamento do contrapiso.
  • Calcular mal a perda (mínimo de 15% para grandes formatos).
  • Permitir o transporte manual das peças sem ventosas.
  • Negligenciar o planejamento da paginação.
  • Utilizar argamassa ACII ou dispensar a dupla colagem.
  • Não usar niveladores de piso.
  • Escolher um rejunte cimentício simples para áreas molhadas ou de cozinha.

Conclusão: a síntese entre técnica e arte

Especificar revestimentos cerâmicos de grande formato é conduzir um processo complexo que vai da análise microscópica das suas propriedades até a visão macro do espaço finalizado. É um ato de responsabilidade técnica e de expressão artística. Ao dominar cada um dos critérios que exploramos neste guia, você, arquiteto ou designer, se capacita não apenas para fazer a escolha certa, mas para argumentar e defender essa escolha perante seu cliente e sua equipe, garantindo um resultado que não apenas encanta pelo design, mas que perdura pela qualidade.

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